Construída ao longo de mais de quatro décadas de prática, a leitura de José Roberto Marques sobre comportamento e desempenho propõe tratar maturidade emocional como ativo, num momento em que mercado e regulação caminham na mesma direção.
Existe uma parte do valor de qualquer empresa que escapa às planilhas. Marca, conhecimento acumulado, qualidade das relações internas e capacidade de decisão raramente cabem num balanço, mas sustentam ou corroem o desempenho ao longo do tempo. José Roberto Marques, fundador do Instituto Brasileiro de Coaching, chama esse território de Valuation Humano, o conceito que organiza boa parte de sua obra.
A premissa é direta, e desconfortável, para conselhos e investidores: o valor de uma empresa não está apenas no que ela fatura ou possui, mas também na maturidade emocional, relacional e decisória de quem sustenta sua operação. Capital humano, nessa conta, deixa de ser linha de custo e passa a ser tratado como ativo capaz de gerar, preservar ou destruir valor dependendo de como é desenvolvido.
“Hoje o mercado ainda discute pessoas como despesa e saúde emocional como benefício. Equipes desequilibradas geram risco, e equipes maduras geram valor. Esse diferencial precisa entrar na lógica de avaliação das empresas”, afirma José Roberto Marques.
Uma tese construída na prática
À frente do IBC desde 2007, Marques construiu uma das maiores estruturas de desenvolvimento humano do país: mais de 6 milhões de pessoas treinadas, presença em mais de 40 países, mais de 140 mil alunos formados e mais de 110 livros publicados que somam milhares de exemplares vendidos. Dessa massa de interações nascem conceitos próprios, como Self Coaching e Psicologia Marquesiana, uma tentativa de transformar repertório acumulado em método com linguagem própria.
“Minha formação como pesquisador do comportamento não veio de um único laboratório. Veio de milhões de interações reais. Cada formação, cada imersão, cada livro é um ponto de dado”, diz.
Quando o mercado dá densidade à ideia
Os números do mercado dão peso à tese. Pesquisas da McKinsey associam saúde organizacional a três vezes mais retorno total ao acionista no longo prazo, enquanto a Gallup estima que a queda do engajamento global para 20% em 2025 custou quase US$10 trilhões em produtividade. Estruturas de reporte começaram a seguir: em agosto de 2025, a ISO (Organização Internacional de Padronização) publicou a segunda edição da ISO 30414 com requisitos auditáveis e 14 métricas obrigatórias para divulgação de capital humano. O que era intangível passou a ter protocolo de medição.
A regulação confirma o discurso
O movimento deixou de ser apenas voluntário. Desde 26 de maio de 2026, a NR-1 (Norma Regulamentadora 1) passou a incluir os fatores de risco psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, levando metas inexequíveis, sobrecarga e assédio moral para o inventário de riscos das empresas. O que era agenda de cultura passa a tocar compliance e governança.
“Há 40 anos falo que inteligência emocional não é soft skill, é infraestrutura organizacional. Agora a legislação confirma. A NR-1 não deveria ser novidade para nenhuma empresa que leva a sério sua força de trabalho”, afirma Marques.
Acesso como extensão da tese
Se pessoas são um ativo, ampliar o acesso ao desenvolvimento humano deixa de ser caridade e vira investimento. A operação de Marques afirma ter destinado mais de 130 mil ingressos, a imersões de inteligência emocional em um esforço de levar a um público amplo um repertório historicamente restrito.
“Desenvolvimento humano é o maior equalizador social que existe. Não existe ferramenta mais poderosa contra a pobreza do que o autoconhecimento”, afirma.
Assim como indicadores ambientais e de governança saíram da periferia para o centro da diligência e da precificação, métricas ligadas à qualidade humana das organizações caminham na mesma direção. A diferença é que, neste caso, o ativo central não está em máquinas, imóveis ou patentes: está na capacidade de uma empresa de sustentar desempenho por meio de pessoas emocionalmente preparadas. O Valuation Humano é uma aposta de que esse ativo, tão real quanto qualquer outro, ainda é subestimado.





























