Modelos de assessoria assumem o cadastro nos tribunais, o controle de prazos e a gestão de honorários, e devolvem ao médico apenas a parte técnica do trabalho. Para o profissional, a promessa é de renda complementar sem abrir mão da rotina clínica.
A demanda do Poder Judiciário por médicos capazes de emitir laudos técnicos em processos de saúde é constante, mas uma parcela dos profissionais habilitados nunca chegou a explorar esse mercado. O motivo raramente é falta de competência clínica. É a camada de burocracia que separa o médico da nomeação: cadastro nos tribunais, acompanhamento de prazos processuais, formatação e protocolo de documentos, comunicação com varas e partes, definição e cobrança de honorários. Uma rotina paralela à atividade médica que poucos conseguem absorver entre plantões e consultas.
É nesse intervalo que surgiram empresas dedicadas a organizar o acesso ao trabalho pericial. A M Perícias, sediada em Maringá, no Paraná, estruturou um modelo em que executa 18 das 19 etapas envolvidas em uma perícia judicial, deixando ao médico contratado apenas a elaboração técnica do laudo. No primeiro ano de operação, a empresa cadastrou 1.327 médicos em sua base de peritos e movimenta, segundo dados internos de abril de 2026, mais de 3 mil nomeações mensais nos tribunais brasileiros.
A divisão de tarefas ajuda a explicar por que o modelo encontrou público. Quem atua como perito judicial pode escolher os casos que aceita e organizar a agenda conforme a disponibilidade, sem a obrigatoriedade de presença física em horários fixos que marca os plantões. Para ingressar, o profissional precisa de registro ativo no Conselho Regional de Medicina e de cadastro junto aos tribunais de sua região. Habilitado, passa a ser nomeado em processos que demandam conhecimento técnico de sua especialidade. Os honorários são definidos pelo próprio perito e submetidos à aprovação do juiz responsável pelo caso.
Alcides Martinhago Junior, CEO da M Perícias, avalia que o desconhecimento sobre o funcionamento do sistema, e não a complexidade da medicina, é o que mantém parte dos médicos longe desse mercado. “Existe uma lacuna entre a formação médica tradicional e o entendimento de como o sistema judiciário funciona. Quando o médico compreende essa dinâmica, percebe que pode contribuir com seu conhecimento técnico e, ao mesmo tempo, estabelecer uma fonte de renda complementar mais flexível e alinhada à sua rotina”, afirma.
O movimento ganha contorno em um momento em que a qualidade de vida e a saúde mental dos próprios médicos ocupam espaço crescente no debate público. Jornadas extensas e pressão por produtividade têm levado profissionais a buscar formas de diversificar a atuação sem abandonar a prática clínica. Nesse cenário, a perícia judicial aparece menos como uma troca de carreira e mais como uma camada adicional de renda, exercida no tempo que o médico decide reservar para ela.
A pergunta que fica é se a estruturação desse acesso, hoje conduzida por empresas privadas, será suficiente para suprir a demanda dos tribunais por peritos qualificados nos próximos anos.




























