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A corda que não segurou: por que tragédias como a de Limeira continuam se repetindo

Engenheiro de risco analisa como processos de verificação e cultura de segurança podem prevenir acidentes em atividades de aventura e operações industriais

Marcelo Henrique Ferreira

Engenheiro de risco analisa como processos de verificação e cultura de segurança podem prevenir acidentes em atividades de aventura e operações industriais

A morte de uma jovem de 21 anos durante um salto de rope jump em Limeira reacendeu o debate sobre segurança em esportes de aventura. Para o engenheiro de risco Marcelo Ferreira, o problema raramente está no equipamento, mas na ausência de uma cultura de verificação que vale tanto para a ponte quanto para o chão de fábrica.

Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, de 21 anos, morreu em 13 de junho, em Limeira, no interior de São Paulo, ao praticar rope jump. A corda que deveria segurá-la não estava presa, e a jovem caiu de aproximadamente 40 metros. O caso ganhou repercussão nacional e voltou a colocar em discussão a segurança em atividades de aventura. Para Marcelo Henrique Ferreira, engenheiro de risco, conselheiro empresarial em inteligência industrial e fundador da SETREIMAX, porém, o ponto central da tragédia está além do equipamento.

“A corda não falhou, ela simplesmente não estava lá. O que falhou foi o sistema de pessoas que tinha tempo, função e procedimento para conferir a única coisa que jamais poderia passar”, afirma o especialista.

Segundo Ferreira, o acidente não é um caso isolado. Em diferentes países, tragédias semelhantes ocorreram por erros humanos e ausência de redundância nos sistemas de segurança. Entre os exemplos estão a morte do americano Dan Osman, considerado um dos pioneiros do rope jump, um acidente na Espanha envolvendo uma turista britânica e outro na Colômbia, em que uma jovem interpretou de forma equivocada o sinal dado ao saltador à frente. No Brasil, um dos casos mais conhecidos ocorreu em Mairinque, em 2016, quando um praticante de bungee jump morreu após falha no equipamento.

Para o especialista, o elemento em comum entre essas ocorrências é a falta de verificação independente. “Cada operação que funciona mil vezes convence a equipe de que continuará funcionando. Até o dia em que a corda não está presa e já é tarde para a única conferência que importava”, explica.

O engenheiro destaca que o mesmo mecanismo está presente em operações industriais. Trabalhos em altura sem ancoragem adequada, espaços confinados sem medição de gases e atividades com inflamáveis realizadas sem as devidas checagens são exemplos de situações em que a normalização do risco pode custar vidas.

“No esporte de aventura e na indústria pesada, o inimigo é o mesmo: a normalização do risco. As normas regulamentadoras existem justamente para impedir que a segurança dependa da sorte ou da memória de alguém”, resume.

Fundada em 2009, a SETREIMAX completa 17 anos em 2026. A trajetória de Marcelo Ferreira inclui dez anos como bombeiro industrial na BASF e mais de 27 anos de atuação na área. Ao longo da carreira, ele participou de mais de mil ocorrências e treinou mais de 30 mil profissionais. A empresa já atendeu mais de 1.600 organizações dos setores químico, petroquímico, de energia e manufatura pesada. Neste ano, a companhia iniciou a expansão da Rede SETREIMAX, modelo de licenciamento e franquias com o objetivo de alcançar os 27 estados brasileiros até 2030, ampliando a atuação em educação corporativa e consultoria aplicada a SSMA, ESG e NR-01.

Para Ferreira, a cultura de segurança é construída nos detalhes. “Ela não nasce em cartazes ou em uma palestra por ano. Surge na dupla checagem, na pergunta que atrasa cinco minutos e que pode ser a diferença entre voltar para casa ou não voltar”, afirma. O especialista recomenda que, tanto em esportes de aventura quanto em operações empresariais, exista uma pessoa responsável exclusivamente pela conferência final, que haja sistemas redundantes e que qualquer integrante da equipe tenha autoridade para interromper a atividade ao identificar uma falha.

“Se existe hesitação na resposta sobre a segurança, a resposta verdadeira já é não”, conclui.

Maria Eduarda não morreu porque o rope jump é perigoso, e sim porque a verificação que poderia evitar a tragédia não foi realizada. Para Marcelo Ferreira, essa é uma lição que ultrapassa a ponte de Limeira e alcança qualquer ambiente em que uma vida depende de um sistema. Afinal, o risco não se elimina. O risco se gerencia. A pergunta que fica, em cada salto e em cada turno de trabalho, é simples: quem é a pessoa responsável por conferir a única coisa que não pode falhar?

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